Não diria que acredito em superstições, mas gosto de pequenos rituais. Preparar o café do mesmo jeito todas as manhãs, carregar um livro comigo mesmo sabendo que talvez eu não vá lê-lo, chegar alguns minutos mais cedo do que o necessário. Não acho que tragam sorte, mas me deixam em paz com a organização.
Você costuma viver relacionamentos ou é mais confortável com a solteirice?
Ouvir o que as pessoas pensam. Não porque eu queira descobrir segredos, mas porque sempre achei fascinante a diferença entre o que alguém mostra e tudo aquilo que está acontecendo dentro da cabeça dela.
Acho que cinco minutos seriam suficientes para eu me arrepender da minha escolha. Algumas coisas talvez sejam mais bonitas quando continuam sendo apenas imaginadas.
Todos carregamos um "superpoder" cotidiano — uma habilidade muito específica e inusitada que não serve para colocar no currículo, mas que resolve pequenos dilemas do dia a dia. Por essa razão, qual é o seu talento oculto mais aleatório ou engraçado que pouca gente sabe que você tem?
Meu talento oculto mais inútil é conseguir reconhecer filmes só pelos primeiros segundos de uma cena. Não sei se isso conta como uma habilidade ou apenas um efeito colateral de passar tempo demais em um cinema, mas às vezes basta uma música, uma fotografia ou um detalhe no cenário e eu já sei exatamente o que estou assistindo. Também consigo encontrar coisas perdidas de outras pessoas, mas nunca as minhas.
Guardamos certos segredos não por vergonha, mas pelo desejo de proteger o que nos é mais vulnerável. Existem artes, versos e melodias que parecem traduzir tanto a nossa essência que entregá-los ao mundo parece quase uma exposição desmedida. Sob esse olhar, existe alguma música ou obra em geral (livro/filme, até algum momento) que você prefere apreciar sozinho, justamente porque compartilhá-la pareceria expor demais a sua intimidade?
Talvez Paterson, de Jim Jarmusch (2016), Stoner, de John Williams (1965) e, em alguns dias, "I Know It's Over", do álbum The Queen Is Dead, dos The Smiths (1986).
Não porque eu queira mantê-los em segredo, mas porque cada um deles parece conhecer uma parte de mim que eu ainda não consegui explicar direito. Compartilhá-los às vezes parece entregar um pedaço da minha intimidade a alguém.
A vida costuma exigir de nós uma constante adaptação entre o que conseguimos executar com o corpo e o que absorvemos em silêncio. Às vezes, desejamos a maestria do movimento; em outras, a leveza de compreender o outro sem a necessidade de palavras.
Diante dessa dualidade, se pudesse escolher, preferiria aprender instantaneamente qualquer habilidade física ou ter o dom de entender os sentimentos não ditos de qualquer pessoa?
Entender os sentimentos não ditos. Acho que boa parte do que nos afasta uns dos outros não é falta de afeto, mas de compreensão. Ainda assim, desconfio que seria um dom pesado de carregar. Algumas pessoas escondem certas coisas porque ainda não estão prontas para dividi-las, e isso também merece ser respeitado.
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