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Agora, se me permite uma curiosidade legítima: o quão importante é ter disciplina na tua visão? Exerce essa obediência em todas as áreas da vida, ou há espaço para impulsos que fogem das regras, de vez em quando?
Considero a disciplina uma forma de respeito. Não apenas pelo trabalho, mas por nós mesmos. Entretanto, desconfio de qualquer vida excessivamente organizada. As maiores decisões que tomei jamais nasceram da disciplina, nasceram de um impulso que a razão levou semanas tentando justificar. Creio que ambas tenham seu lugar. A disciplina constrói a vida que desejamos manter. Os impulsos, por vezes, revelam a vida que realmente desejávamos viver. Hoje, apenas aprendi a ser criteriosa quanto a eles. Nem todo impulso merece ser seguido. Mas alguns... mudam uma existência inteira.
Disserte sobre tua última leitura, Karenina. E então, a associe à tua leitura favorita!
Minha última leitura foi Diário do Luto, de Roland Barthes. O curioso é que não encontrei nele grandes reflexões sobre a morte, mas sobre a permanência. A forma como uma ausência continua vivendo nos pequenos hábitos me pareceu muito mais dolorosa do que qualquer despedida. Enquanto A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery... Ambos me fizeram pensar que a vida raramente muda por causa dos grandes acontecimentos. Ela muda quando aprendemos a enxergar aquilo que antes atravessávamos sem notar.
E talvez seja por isso que eu continue voltando a Barbery, as vezes.
O que mais gosta de fazer nos dias tranquilos?
Confesso que gosto de me permitir pequenos caprichos. Experimentar um perfume novo, visitar uma galeria, comprar um livro apenas porque a encadernação me pareceu irresistível ou sentar em um café por tempo suficiente para esquecer por que entrei ali. E não, não considero isso improdutivo!
Considera-se uma mulher de tradições? Em caso afirmativo, qual delas gosta mais de praticar sem falta?
Considero-me, embora não pelas razões que costumam imaginar. As tradições sempre me pareceram menos importantes do que a disciplina que exigem. Nunca inicio uma refeição importante antes que todos estejam à mesa. É um gesto pequeno, quase imperceptível, mas sempre pensei que a elegância começasse justamente nessas concessões silenciosas que fazemos ao outro. A pressa, por mais justificável que seja, raramente combina com a boa educação.
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