☣︎ · 10mo

Yu! Sou eu. Advinhe quem. Preciso que me entretenha contando se já viu alguém se arrepender do envenenamento no último minuto de vida. Conte-me como foi.

Oi! Já falei no quão péssimo sou em jogos de adivinhação? Mas, por você, eu tentarei. Aproveite enquanto não te identifico daqui das sombras também. E, escute bem essa memória que deixo guardada: uma dama de branco ressoa os sinos de minha loja. Cobria seu semblante com um capuz de seda branca que se conectava ao vestido de mesma cor, e deixa uma carta com uma insígnia de cor cobre em minha frente. A abri somente ao fim do dia, pois gosto de lê-las com a atenção que merece uma confissão escrita. Pois bem, duas semanas depois estou diante de um... castelo! Os primeiros raios de sol me deram boas-vindas. Carregava comigo uma simples injeção de tetrodotoxina. E adentrei o quarto que me foi indicado nas letras trêmulas. A dama estava lá, da mesma maneira em que me entregou a carta. Não vi seu rosto, somente o fim de cachos loiros, e mãos brancas que descansavam em seu colo. Sequer trocamos palavras. Sentei-me ao seu lado, diante de um piano. Finquei a seringa ao braço alheio, como uma enfermeira que vacina um bebê rápido o suficiente para que não percebesse a dor. Ainda está fresco na memória... o jeito que ela me arrochou os braços com uma força que eu não achei que a toxina deixaria ter. Tive, então, o primeiro e último relance de olhos tão claros e úmidos quanto a primeira neve do inverno, e de um suspiro entrecortado de quem suplicaria pela volta de algo que antecedia as paredes daquele castelo, imagino. Percebeu o quão real era eu estar ali, e infinitas súplicas silenciosas me foram feitas nos últimos minutos que o olhar difuso se sustentava ao meu. Caiu de bruços no piano como uma flor murcha, provavelmente acordando o lugar inteiro naquele fim de madrugada intenso com as notas desconexas e sem vida que ecoaram como uma sinfonia deliciosamente sinistra. Saí de lá antes que mais raios de sol anunciassem a chegada daquela morte. Passei algumas semanas com marcas quase arroxeadas de dedos raivosos em meu braço esquerdo, honrando o último registro daquela vida.

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